• Letícia Goulart

u t o p i a




Rufam os tambores, anunciando o crepúsculo do velho tempo. Cá estamos, uma legião de mulheres em procissão, rosas nas mãos. Ora uma ou outra corta os dedos nos espinhos e uma trilha de gotículas de sangue se forma sob nós, mas seguimos. Vestidos negros e brancos, peles claras e escuras, há sangue escorrendo por entre as pernas, originado do ventre - da vida que foi e que se vai, vida que nem chegou a ser. Seguimos. Lágrimas nos olhos, sorriso na boca e por vezes um ar bossal de quem pouco se importa, mas no fundo muito sente. Persistimos, embora cansadas. A dor da invisibilidade, negligência e violência, por vezes desanima e faz querer pausar a jornada. Os vestidos já encardidos de poeira e rancores que se acumulam, junto a uma carga física e mental, do movimento de quem não para nunca. Não olha no espelho, não penteia o cabelo, não se resguarda nem por um momento. Seguimos, firmes, pois também sabemos que somos fortes - embora canse sustentar essa máscara dura, quando o único desejo é amolecer-se de vida. Resistimos para não desistir, pois ainda há chão e a cada passo a transformação acontece. De vez em quando uma padece, unimo-nos em círculo e oramos. Seguimos, não podemos parar. Rosas nas mãos, somos a resistência. Subversivas. Atravessamos a noite escura da alma, mergulhamos em sombras profundas, enfrentamos demônios e bebemos do néctar dos deuses do submundo. Exaustas, sentindo que a qualquer instante o corpo pode sucumbir, a mente desvairar, mas firmes, unidas - rosas nas mãos. A hora mais fria e escura da noite ocorre momentos antes de raiar o dia. Silêncio sepulcral, temor. O relógio tic-taca, é possível ouvir o soar das trombetas. A aurora do novo tempo se faz tímida num céu limpo e ainda estrelado. A Mãe Lua nos abençoa, minguada e pálida, calada. A névoa da madrugada dissipa, as cores dançam no céu e parecem penetrar nossos corpos, colorindo também as almas - das que se foram e das que aqui seguem. Honramos cada uma em sua história. Rosas nas mãos. Seguimos firmes, mas não mais fortes, pois cansadas de sermos fortalezas. Derrubamos muros, construímos pontes. Mergulhamos em lagos encantados, tirando o peso do corpo e permitimos que o espírito manifeste sua leveza. Sereias penteiam nossos cabelos, enquanto fadas celebram nossa vitória. Foi uma luta árdua, desigual em forças de poder, onde por muitas vezes agimos na surdina, aguardando o tempo certo, enquanto em outras despertávamos uma brutalidade descomunal, urrando por mudanças. Mas tudo isso ficou para trás, pois persistimos na jornada rumo ao novo tempo. Espiralamos nas trilhas do espaço-tempo da vida e cá estamos, em uma oitava mais elevada. Há música, comida para todos, sorrisos e abraços sinceros. Há confiança, em nós e no outro - inclusive nos homens. Encontramos o equilíbrio, despertamos harmonia. Há muito mais do que tolerância: compreensão, afeto e respeito. Agora é possível sentir prazer em gozar a vida. O orvalho evapora a medida que o calor do sol preenche as lacunas de nossas almas. Uma semente germina e é possível sentir que há algo de novo brotando para além da dualidade. Inalo o doce aroma das flores, ainda que seja possível sentir a dor causada pelos espinhos, não há mais sofrimento. Há consciência. É preciso integrar, pois é chegada a Nova Era.


Utopia, nem tão utópica assim.

Espero.


LGS 🌹

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